
O Vilão Também Não Quer Isso
Trump ameaçou destruir toda a infraestrutura civil do Irã caso o país não reabra o Estreito de Ormuz até as 20h de hoje. Sua frase — "uma civilização inteira vai morrer esta noite" — é o monólogo perfeito do vilão que Hollywood passou décadas nos ensinando a reconhecer. Uma crônica sobre o dia em que o herói e o vilão trocaram de falas.
Existe uma cena que o cinema americano repetiu tantas vezes que já virou reflexo condicionado. O planeta está em perigo. Alienígenas, asteroides, vírus, robôs, nazistas do espaço — tanto faz. Alguém vai morrer. Muita gente vai morrer. E então, num momento de silêncio dramático, um presidente americano sobe a um palanque, olha para a câmera e diz: não vamos deixar que isso aconteça.
É ele quem salva a civilização.
Sempre foi ele.
Em Independence Day, Will Smith e o presidente americano destroem a frota alienígena enquanto o mundo assiste. Em Armageddon, Bruce Willis morre para salvar a Terra porque era o único capaz de fazer isso — e claro, era americano. Em Interstellar, Matthew McConaughey viaja para além do tempo e do espaço para garantir que a humanidade continue existindo. Em Avengers: Endgame, o Homem de Ferro estala os dedos e elimina Thanos — o vilão que queria acabar com metade da civilização.
O vilão, note bem, é sempre o que quer acabar com a civilização.
Essa é a regra não escrita do roteiro. O vilão discursa sobre destruição inevitável. O herói americano aparece no último segundo para impedir.
Até esta manhã de terça-feira, 7 de abril de 2026, quando Donald Trump publicou no Truth Social:
"Uma civilização inteira vai morrer esta noite, para nunca mais ser trazida de volta. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá."
Pausa.
Releia a frase.
Isso não é a fala do herói. Isso é o monólogo do vilão.
O contexto, para quem chegou agora: os Estados Unidos e Israel estão em guerra com o Irã desde o fim de fevereiro. O Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto de todo o petróleo do mundo em tempos de paz, foi fechado pelo Irã. Trump impôs um prazo — abrir o Estreito ou sofrer uma ofensiva devastadora contra toda a infraestrutura civil do país: pontes, usinas de energia elétrica, plantas de dessalinização.
Hoje é o dia do prazo.
Nesta manhã, ataques aéreos já atingiram pontes e uma estação ferroviária no Irã. A ilha de Kharg, maior terminal de exportação de petróleo do país, foi bombardeada. Iranianos se encadeiam em volta de usinas de energia para servir de escudo humano. O presidente do Irã diz que 14 milhões de pessoas se voluntariaram para combater.
E Trump escreve que uma civilização inteira vai morrer.
Especialistas em direito internacional chamam isso de ameaça de crime de guerra. A ONU pede contenção. A França pede contenção. O secretário-geral das Nações Unidas lembra que atacar infraestrutura civil é proibido pelas regras da guerra. Trump respondeu que não está nem um pouco preocupado com a possibilidade de estar cometendo crimes de guerra.
Bem-vindo ao segundo mandato.
Thanos queria eliminar metade da civilização para, nas palavras dele, salvar o universo. Ele também não queria que isso acontecesse, mas achava inevitável. Era o grande vilão do universo Marvel — odiado por bilhões de pessoas em todo o planeta — exatamente por isso.
Trump disse: não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá.
A diferença entre Thanos e Trump, a esta hora da tarde, é que Thanos era fictício.
Hollywood passou décadas exportando para o mundo a imagem de um país que aparece no último segundo para salvar tudo. Salvou a Terra dos alienígenas. Salvou a humanidade dos asteroides. Salvou a democracia dos nazistas. Salvou o universo de um titã roxo com uma luva mágica.
Hoje, o presidente desse mesmo país posta numa rede social que uma civilização inteira vai morrer esta noite.
O roteiro virou. Ninguém avisou ao público.
Existe ainda a possibilidade de um acordo de última hora. Fontes diplomáticas falam em progresso discreto nos bastidores. O vice-presidente Vance, em Budapeste ao lado de Orbán — porque é esse o tipo de companhia que se encontra neste governo —, disse que a guerra terminará "muito em breve". Trump ele próprio deixou uma fresta aberta: "talvez algo revolucionariamente maravilhoso ainda possa acontecer".
É a cena do último segundo. O herói ainda pode aparecer.
Só que desta vez, o herói e o vilão têm o mesmo Twitter.
M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.
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