
O Ungido
De "Rei de Israel" em 2019 a briefings militares sobre o Armagedom em 2026: a escalada da retórica messiânica em torno de Trump, rastreada com fatos documentados e uma pergunta incômoda que os textos sagrados já fizeram antes.
O roteiro é velho. Um homem se levanta. Diz que foi escolhido. Os fracos acreditam, os espertos fingem que acreditam e os poderosos calculam quanto podem lucrar com a fé alheia. A novidade é que, em 2026, o roteiro vem com mísseis Tomahawk.
Agosto de 2019. Trump retuíta um comentarista de rádio — desses que colecionam teorias conspiratórias como figurinhas — que afirmava que os judeus de Israel o amavam "como se fosse o Rei de Israel" e "como a segunda vinda de Deus." Trump não corrigiu. Respondeu com um "Wow!" e foi almoçar.
No mesmo dia, diante das câmeras, olhou para o céu com os braços abertos e disse: "Eu sou o Escolhido." Falava sobre tarifas contra a China. Mas quando você se proclama "o Escolhido" horas depois de aceitar o título de "segunda vinda de Deus", a pauta de comércio exterior perde um pouco da força, convenhamos.
Naquela noite, "anticristo" virou trending topic no Twitter. As coisas acontecem.
Semanas antes, o secretário de Estado Mike Pompeo — não um pastor, não um tio no grupo de família, o chefe da diplomacia americana — foi à televisão cristã em Jerusalém e, perguntado se Trump seria uma espécie de Rainha Ester enviada por Deus para salvar os judeus do Irã, respondeu: "Como cristão, eu certamente acredito que isso é possível." E completou: "Estou confiante de que o Senhor está trabalhando aqui."
A política externa dos Estados Unidos, ancorada no Livro de Ester. O Pentágono deve ter adorado.
Avança para 2024. Campanha eleitoral. A equipe de Trump viraliza um vídeo chamado "God Made Trump" — Deus Criou Trump. Tom litúrgico, narração solene, linguagem bíblica sem disfarce: Deus, em 14 de junho de 1946, olhou para baixo e disse "preciso de um zelador." E criou Trump. Um "pastor para a humanidade que nunca os deixará nem os abandonará."
Exibiram nos telões dos comícios em Iowa. O homem conquistou 51% do voto evangélico no estado. Coincidência muito bem remunerada.
Março de 2025. Oito reféns israelenses libertados do Hamas são recebidos no Salão Oval. Um deles, Omer Shem Tov, olha nos olhos de Trump e diz: "Minha família e eu acreditamos que você foi enviado por Deus para nos libertar."
Agora, o que faria qualquer líder diante dessa frase? Agradeceria. Redirecionaria o mérito. Citaria as forças armadas, a diplomacia, sei lá, o bom senso.
Trump perguntou: "Vocês não achavam, até eu aparecer, que iam sair de lá?"
Responderam que não. E ele sorriu. Absorveu o título como quem aceita um presente que já esperava encontrar debaixo da árvore de Natal.
Ele não disse "sou enviado de Deus." Não precisou. Alguém disse por ele. E ele vestiu.
Existe um nome bonito para isso: messianismo por delegação. O líder nunca comete a blasfêmia da autoproclamação. Ele monta o palco, distribui os papéis — pastores, secretários de Estado, sobreviventes de tragédias — e espera. Quando o manto sagrado chega, ele abre os braços. Que surpresa. Não esperava. Mas já que insistem...
O truque mais velho do poder. A mão que recebe a coroa nunca é a mão que a forjou.
Guarde essa ideia. Porque agora o circo pega fogo. Literalmente.
Fevereiro de 2026. Operação Epic Fury. A maior campanha aérea no Oriente Médio em uma geração. Bombardeiros sobre o Irã. Natanz destruída. O aiatolá Khamenei morto. Mísseis cruzando o céu de Tel Aviv a Dubai. Soldados americanos morrendo em bases no Golfo.
E é aqui — no meio de uma guerra real, com corpos reais — que a retórica messiânica sai dos palanques e entra nos quartéis.
A Military Religious Freedom Foundation reportou mais de duzentas queixas em 48 horas. De mais de cinquenta instalações militares. Exército, Força Aérea, Fuzileiros, Força Espacial. O teor? Comandantes dizendo às tropas, em briefings de combate, que a guerra era "parte do plano divino de Deus." Que o presidente havia sido "ungido por Jesus para acender a fogueira no Irã e causar o Armagedom."
Citavam o Livro do Apocalipse. Não como metáfora. Como briefing de inteligência. O Apocalipse de São João ao lado do mapa tático. Imagine a cena.
Um suboficial descreveu que o comandante tinha "um grande sorriso no rosto" enquanto anunciava o fim dos tempos. Escreveu a queixa em nome de dezesseis pessoas da sua unidade: onze cristãos, um judeu e um muçulmano. Todos igualmente estarrecidos.
E a Casa Branca? A linguagem oficial era cirurgicamente secular. "Campanha militar precisa." "Eliminar a ameaça nuclear." "Paz através da força." A palavra "Deus" só aparecia no protocolo de sempre: "Que Deus abençoe os Estados Unidos da América."
A engenharia é admirável, se você tiver estômago para admirar esse tipo de coisa. O discurso oficial fala de geopolítica. Os quartéis pregam o Apocalipse. E o presidente paira acima dos dois, colhendo os frutos de ambos. Ninguém olha para as duas mãos ao mesmo tempo.
O mais delicioso? O próprio Trump já confessou, a bordo do Air Force One, que provavelmente "não está a caminho do céu." Não fez por Deus, disse. Fez "para salvar vidas."
Ou seja: ele não acredita na própria sacralidade. Mas não se importa que outros acreditem. Que os generais preguem o Armagedom, que os pastores prometam fogo divino, que os reféns o chamem de enviado — ele aceita tudo com a humildade de quem guarda a coroa no cofre e jura que não pediu.
Juntemos os pontos, leitor. É para isso que serve o Ponto Cego.
Um líder que aceita ser chamado de Rei de Israel. Que olha para o céu e diz "eu sou o Escolhido." Cujo secretário de Estado diz que Deus o enviou. Cujos marqueteiros o descrevem como criação divina. Que recebe o título de "enviado de Deus" das mãos de vítimas do terrorismo e não corrige. E cujas forças armadas, em plena guerra, são instruídas de que os bombardeios são o cumprimento literal do Apocalipse.
Não estou afirmando nada. Estou fazendo uma lista e observando que ela se parece bastante com outra lista — uma que está em livros bem mais antigos que qualquer constituição.
Quase todas as tradições sagradas alertam para a mesma coisa: desconfie do homem que se deixa chamar de santo. Nas escrituras cristãs, existe uma figura específica para isso. Alguém que virá com promessas de salvação, cercado de adoradores, empunhando a fé como arma. Alguém que não precisa dizer quem é — porque o mundo dirá por ele.
Não vou nomear essa figura. Você já sabe o nome.
A pergunta é simples: quantos sinais precisam se acumular antes de alguém decidir ler as letras miúdas?
M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.
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