O Porta-Aviões Não Veio Ver o Pão de Açúcar
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O Porta-Aviões Não Veio Ver o Pão de Açúcar

O USS Nimitz ancora no Rio na mesma semana em que a USA Rare Earths anuncia a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo — e eleições em outubro. Nada aqui é coincidência.

M. Casamata
M. Casamata
5 min de leitura

O porta-aviões nuclear mais antigo ainda em operação no mundo ancorou na Baía de Guanabara esta semana. A notícia virou entretenimento. "Veja o tamanho desse bicho." "É maior que o Maracanã." Turistas tiraram foto. Especialistas em defesa comentaram. E pronto, assunto encerrado.

Mas por que agora?

Essa é a pergunta que quase ninguém fez.

O USS Nimitz tem 51 anos. Nasceu antes da redemocratização do Brasil. Antes do fim da Guerra Fria. Antes da internet. Vai ser desativado em 2027. Sua última missão operacional é uma circunavegação da América do Sul — uma rota obrigatória pelo Cabo Horn, já que o navio não cabe no Canal do Panamá. A Marinha americana resolveu transformar o percurso final numa demonstração. Dez países parceiros. Exercícios conjuntos. Autoridades convidadas a bordo. Comunicados sobre "construção de confiança mútua."

Um navio que vai ser sucateado em 2027 está sendo usado para mandar recado em 2026.

Qual recado?

Em janeiro deste ano, os Estados Unidos bombardearam a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro. Não foi improviso. Foi a aplicação prática de uma doutrina escrita, publicada e assinada: a Estratégia de Segurança Nacional de 2025, que invoca explicitamente a Doutrina Monroe e declara o Hemisfério Ocidental área de influência americana — sem China, sem Rússia, sem interferência de fora. O nome informal que ficou foi "Doutrina Donroe." Uma piada que carrega uma ameaça.

A América do Sul não é só carnaval e futebol. É o triângulo do lítio — Argentina, Bolívia, Chile. É o maior reservatório de água doce do planeta. É petróleo na Venezuela. E é, no caso do Brasil, a segunda maior reserva de terras raras do mundo.

Segunda maior. Atrás apenas da China.

Terras raras são os 17 elementos químicos que estão dentro de cada carro elétrico, cada turbina eólica, cada caça de quinta geração e cada chip de defesa avançada. Deng Xiaoping disse certa vez que o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras. Não foi metáfora. Foi estratégia de longo prazo. E funcionou: Pequim controla entre 60% e 90% da cadeia global — da extração ao refino, do refino ao produto acabado.

Quando a China ameaçou restringir as exportações de terras raras no início de 2025, Washington entrou em pânico. Desde então, acelerou a busca por alternativas. O Brasil apareceu como resposta óbvia.

Agora preste atenção no calendário.

Na mesma semana em que o USS Nimitz ancora no Rio, a empresa americana USA Rare Earths anuncia a compra da Serra Verde — mineradora brasileira de terras raras no estado de Goiás — por 2,8 bilhões de dólares. A mesma semana. O porta-aviões e o contrato. O músculo e a carteira. A visita e o cheque.

Não é coincidência. É sequência.

Em fevereiro, o governo americano já havia dado um empréstimo de 565 milhões de dólares à própria Serra Verde. Em março, realizou um fórum em São Paulo e declarou interesse em pelo menos 50 projetos brasileiros de minerais críticos — terras raras, lítio, grafite, nióbio, cobalto. O ritmo é claro: primeiro eles financiam, depois eles compram.

O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras. Tem 94% das reservas globais de nióbio. Tem lítio em Minas Gerais, grafite na Bahia, e depósitos de argila iônica em Goiás que lembram, em composição, os das províncias do sul da China. O problema é que o Brasil produz menos de 1% do total mundial de terras raras. Tem a mina. Não tem a refinaria.

E é exatamente aí que entra a disputa.

O presidente Lula foi a uma cúpula em Bogotá e disse que o Brasil não pode "ser apenas exportador de minério bruto." Legisladores em Brasília propõem a criação da Terrabras, uma estatal para desenvolver as reservas internamente, em vez de entregá-las cruas para fora. O raciocínio é simples: exportar minério bruto é trabalhar para o processador. É ser fazenda de matéria-prima numa guerra industrial global.

Só que do outro lado do tabuleiro, Flávio Bolsonaro foi à CPAC nos Estados Unidos e declarou que o Brasil "é a solução para os EUA quebrarem a dependência da China em terras raras." Dois projetos de país. Dois futuros. Dois lados da mesma eleição.

Em outubro de 2026, o Brasil vota.

O Instituto Peterson, de Washington, publicou uma análise direta: um acordo dos EUA com o Brasil sobre minerais críticos "é certo — com o governo atual ou com o próximo." Se Lula não fechar, o próximo fechará. Milei entregou na Argentina. Os analistas americanos chamam isso de paciência. Outros chamam de outra coisa.

O USS Nimitz não é uma ameaça. Ninguém vai bombardear o Rio. Não é esse o jogo.

O jogo é presença. Sinalização. O equivalente diplomático de um aperto de mão que dura um segundo a mais do que o confortável. Você sente. Você entende. Nada precisa ser dito.

Há 76 bases militares americanas espalhadas pela América Latina. A maior empresa de terras raras dos EUA acabou de comprar uma mina brasileira por 2,8 bilhões de dólares. O porta-aviões mais antigo em atividade no mundo está fazendo uma "missão de parceria" com dez países. E a Doutrina Monroe foi reembalada, tirada da prateleira e aplicada — não metaforicamente, mas com bombas de verdade — pela primeira vez desde o Panamá, em 1989.

Os turistas continuam fotografando o navio.

O Pão de Açúcar ao fundo ficou lindo na foto.

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M. Casamata
M. Casamata

M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.

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