O Ódio que Espera o Fim do Mundo
Início

O Ódio que Espera o Fim do Mundo

Irã e Israel já foram aliados íntimos — vendiam petróleo juntos e desenvolviam mísseis em projetos secretos. A Revolução de 1979 transformou essa parceria em ódio existencial, alimentado por uma teologia apocalíptica que vê a destruição de Israel como pré-requisito para a vinda do Mahdi, o messias xiita. Entender essa guerra exige olhar além da geopolítica.

M. Casamata
M. Casamata
9 min de leitura

Antes de serem inimigos mortais, o Irã e Israel eram amigos. Bons amigos. Daqueles que vendem petróleo com desconto e desenvolvem mísseis juntos num projeto secreto. Parece piada, mas não é. Se você quer entender a guerra que está abalando o mundo agora mesmo, precisa voltar no tempo — bem mais do que imagina.

Judeus vivem no Irã há mais de 2.500 anos. Leu certo: dois mil e quinhentos. Desde a época de Ciro, o Grande, o rei persa que libertou os judeus do cativeiro na Babilônia e permitiu que voltassem a Jerusalém para reconstruir o Templo. Ciro é mencionado na Bíblia como instrumento de Deus. Um persa. Um iraniano, se quisermos ser anacrônicos. Para os judeus, a Pérsia não era inimiga — era a mão que abriu a porta da liberdade.

Essa convivência durou milênios. Quando, em 1947, a ONU propôs dividir a Palestina em dois Estados — um judeu, outro árabe —, o Irã não apenas participou da votação como chegou a sugerir uma federação na qual árabes e judeus trabalhariam juntos. Votou contra a resolução final, é verdade, mas não por ódio a Israel. Pelo contrário: achava que a proposta não dava o suficiente para os palestinos.

Quando Israel declarou independência em 1948 e os vizinhos árabes atacaram imediatamente — Egito, Síria, Jordânia, Iraque, Líbano —, o Irã ficou de fora. Não entrou na briga. E nas décadas seguintes, enquanto o mundo árabe jurava destruir Israel, o Irã fazia negócios com ele.

A partir de 1955, o Irã começou a vender petróleo a Israel com desconto. Quando os países árabes se recusaram a vender, os iranianos disseram: nós vendemos. E venderam. Montaram empresas conjuntas no Panamá e na Suíça sob uma estrutura chamada Trans-Asiatic Oil. Na crise de 1973, quando a OPEP embargou o petróleo para os Estados Unidos e a Europa, o Irã não aderiu ao boicote. Continuou produzindo normalmente. E ficou mais rico por isso.

Em 1977, iranianos e israelenses assinaram o Projeto Flower — um programa militar conjunto para desenvolver sistemas avançados de mísseis. Era um de seis contratos de petróleo por armas, avaliados em 1,2 bilhão de dólares. Discutiram até incluir ogivas nucleares. Desistiram porque "levantaria um problema com os americanos". A frase é de um relatório da CIA.

Dois países trabalhando juntos em mísseis nucleares. Hoje, um deles bombardeia o outro. O que aconteceu?

Aconteceu 1979.

A Revolução Iraniana derrubou o Xá Mohammad Reza Pahlavi — aliado dos EUA, aliado de Israel, modernizador de um país que não queria ser modernizado — e colocou no poder o aiatolá Ruhollah Khomeini, um clérigo xiita que havia passado 14 anos no exílio. Khomeini não era político. Era teólogo. E sua teologia tinha três mandamentos absolutamente inegociáveis: expulsar os Estados Unidos do Oriente Médio, substituir Israel pela Palestina e derrubar a ordem mundial ocidental.

A embaixada de Israel em Teerã foi transformada em missão palestina. Habib Elghanian, um dos mais proeminentes empresários judeus iranianos, foi executado sob acusação de espionagem para Israel. A mensagem era cristalina: os judeus não eram mais bem-vindos.

E então vieram os slogans. Se você nunca ouviu as palavras em farsi, eu conto: "Marg bar Esrāʾil!" e "Marg bar Āmrikā!" — Morte a Israel, Morte à América. Essas duas frases se tornaram o hino nacional não oficial da República Islâmica. São gritadas em todas as orações de sexta-feira, em todos os comícios do regime, em todos os aniversários da revolução. Todo ano, efígies de presidentes americanos são queimadas enquanto multidões repetem, em coro, o pedido de morte a dois países inteiros.

Netanyahu, ao comentar a morte de Khamenei nos ataques da semana passada, disse uma frase que resume quatro décadas: "Por 47 anos, o regime dos aiatolás gritou 'Morte a Israel' e 'Morte à América'. Derramou nosso sangue, assassinou americanos e massacrou seu próprio povo."

Mas há algo que geopolítica e economia não explicam. Algo que a maioria dos analistas ocidentais ignora porque não sabe lidar com isso, porque parece irracional demais, primitivo demais. Algo que, no entanto, é a chave de tudo.

O Irã não quer destruir Israel apenas por território, por petróleo ou por influência regional. O Irã quer destruir Israel porque acredita — literalmente, teologicamente, sem metáfora — que a destruição de Israel é um pré-requisito para o fim do mundo.

Calma. Eu explico.

O Irã é um país xiita. Mais especificamente, segue o xiismo duodecimano — a crença nos Doze Imãs, descendentes diretos do Profeta Maomé através de Ali, seu genro. Para os xiitas, esses Doze Imãs eram infalíveis, guias espirituais supremos. Onze deles foram assassinados. O décimo segundo — Muhammad al-Mahdi, nascido em 868 — desapareceu quando era criança. Não morreu. Entrou no que os xiitas chamam de "ocultação": Deus o escondeu. Ele está vivo, em algum lugar, há mais de mil e cem anos, esperando o momento certo para voltar.

Quando voltar, o Mahdi — o "Guiado" — vai liderar uma batalha apocalíptica final contra as forças do mal, instaurar a justiça divina e estabelecer o domínio islâmico sobre o mundo inteiro. É a versão xiita do Apocalipse. O messias deles.

Até aqui, você pode pensar: tudo bem, é uma crença religiosa como qualquer outra. O problema é o que vem depois.

Diferentemente de outras tradições messiânicas, em que a paz e a harmonia precedem a chegada do salvador, no xiismo duodecimano a lógica é invertida. O Mahdi não vem quando o mundo está em paz. Ele vem quando o mundo está em chamas. O caos é pré-requisito. A guerra é pré-requisito. E — aqui está o ponto que muda tudo — a destruição de Israel é pré-requisito.

Clérigos ligados à Guarda Revolucionária iraniana pregam, com base em hadiths (tradições islâmicas), que "o Estado judeu será destruído antes da chegada do Mahdi" e que "os muçulmanos xiitas estarão do lado da guerra contra os judeus" antes de sua reaparição. Não é retórica. É doutrina. É o que ensinam nas academias militares, o que repetem nas mesquitas, o que guia a política externa do país.

Ahmadinejad, quando foi presidente, disse abertamente: "Nossa missão é transformar o Irã no país do Imã Oculto." Fez um discurso na ONU em 2005 e depois contou, num vídeo, que sentiu um "brilho" e uma "aura" ao seu redor, e que os líderes mundiais ficaram sem piscar durante 27 minutos. Não era força de expressão. Ele acreditava nisso.

Pense no que isso significa para a política nuclear. Durante a Guerra Fria, a lógica da destruição mútua assegurada — MAD, na sigla em inglês — manteve as superpotências em xeque. Ninguém dispara primeiro porque sabe que será destruído em seguida. Mas e se um dos lados quer a destruição? E se acredita que a destruição é o caminho para a salvação? A lógica da dissuasão não funciona com quem deseja o apocalipse.

É isso que torna o Irã nuclear tão assustador para Israel. Não é um adversário racional no sentido ocidental da palavra. É um adversário cuja racionalidade opera numa frequência diferente — a frequência do fim dos tempos.

E essa teologia não fica confinada ao Irã. Ela se espalha por todo o chamado Eixo da Resistência — Hezbollah no Líbano, Hamas em Gaza, Houthis no Iêmen. O slogan dos Houthis vai além do iraniano: "Deus é grande, morte à América, morte a Israel, maldição aos judeus, vitória para o Islã." Não são figuras de linguagem. São artigos de fé.

O curioso — e trágico — é que boa parte do povo iraniano não compactua com isso. A juventude iraniana, a geração que nasceu depois da revolução, está farta. Em 2009, no Movimento Verde, gritaram nas ruas: "Não a Gaza, não ao Líbano, minha vida pelo Irã!" Em 2018, torcedores de futebol em Teerã entoaram "Morte à Palestina" — invertendo o slogan oficial. Em 2023, estudantes forçados a gritar "Morte a Israel" nas escolas mudaram o coro para "Morte à Palestina" em protesto contra o regime.

Iranianos da diáspora marcharam ao lado de comunidades judaicas nos Estados Unidos e na Europa depois do ataque do Hamas em outubro de 2023. O príncipe herdeiro exilado Reza Pahlavi visitou Israel naquele mesmo ano e levou uma mensagem de amizade. O povo persa e o povo judeu nunca foram inimigos naturais. São reféns de uma teocracia que sequestrou um país inteiro em nome de uma profecia.

E o Brasil nisso tudo?

O Brasil importa o caos iraniano toda vez que o preço do barril sobe. O Estreito de Ormuz fecha, e o diesel do caminhoneiro em Goiânia encarece. Os Houthis atacam navios no Mar Vermelho, e o frete do container que traz componentes de Shenzhen para Manaus dobra. Cada míssil lançado no Oriente Médio respinga na Selic, na inflação, no preço do botijão de gás na periferia de Recife.

Mas há algo mais sutil. O Brasil tem a maior comunidade árabe fora do mundo árabe e uma das maiores comunidades judaicas da América Latina. Essas comunidades convivem, em grande parte, pacificamente — coisa que muitos países não conseguem. Quando o Itamaraty se posiciona sobre o conflito, não fala só para o mundo. Fala para dentro. E o que diz — ou deixa de dizer — sobre um regime que grita "morte" como política de Estado diz muito sobre quem somos.

Agora, com Khamenei morto, o Irã está num momento de escolha. O candidato mais provável a novo Líder Supremo é Mojtaba Khamenei, filho de Ali. Um homem das sombras, com laços profundos com a Guarda Revolucionária. Se ele assumir, o sinal será claro: a guerra continua. A busca pelo Mahdi continua. O ódio a Israel continua.

Porque esse ódio não é político. Não é territorial. Não é étnico. É teológico. E contra teologia, tratados de paz não funcionam. Sanções não funcionam. Diplomacia não funciona.

Dois mil e quinhentos anos atrás, um rei persa libertou os judeus. Em 1977, iranianos e israelenses desenhavam mísseis juntos. Hoje, o que sobrou daquela amizade antiga é o eco de um grito que se repete toda sexta-feira em Teerã: morte, morte, morte.

A história do Irã e de Israel não é a história de um ódio antigo. É a história de uma amizade assassinada. E o assassino tem nome: chama-se Revolução.

Anúncio Fim do Post
M. Casamata
M. Casamata

M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.

Compartilhar

Comentários

Comentários ofensivos ou desrespeitosos poderão ser excluídos pela administração.