O Estreito que Engoliu o Mundo
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O Estreito que Engoliu o Mundo

A guerra entre EUA e Irã fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial. Petroleiros estão parados, o barril disparou e a cadeia de preços — do diesel ao pão — já sente o impacto. O fantasma de 1973 está de volta.

M. Casamata
M. Casamata
6 min de leitura

Existe um pedaço de mar entre o Irã e Omã que tem 34 quilômetros de largura. Trinta e quatro. Menos do que a distância entre Porto Alegre e Viamão. Por esse corredor minúsculo passam, todos os dias, 20 milhões de barris de petróleo. Um quinto de tudo que o planeta consome.

Chama-se Estreito de Ormuz.

Se você nunca ouviu falar dele, não se preocupe. A maioria das pessoas também não. Mas a partir de agora, grave esse nome. Porque foi ali que a guerra entre Estados Unidos e Irã deixou de ser um problema militar e se tornou o seu problema. O meu. O de todos nós.

Horas depois dos primeiros bombardeios americanos e israelenses, a Guarda Revolucionária iraniana transmitiu um aviso por rádio para todos os navios na região: nenhuma embarcação está autorizada a cruzar o Estreito de Ormuz. Não foi uma ameaça vaga. Três petroleiros foram atingidos. Dois tripulantes morreram. O Fairmont, The Palm de Dubai, pegou fogo por causa de detritos de mísseis interceptados. E 150 navios — cento e cinquenta — estão parados, ancorados dos dois lados do canal, esperando uma autorização que não vem.

O tráfego de petroleiros caiu 70%.

Setenta por cento. Num canal por onde passa um quinto do petróleo do mundo.

Faça as contas.

Na segunda-feira, o barril de Brent fechou em alta de quase 7%, a 77 dólares. No domingo, antes dos mercados oficiais abrirem, já havia subido 10% no mercado de balcão. Analistas falam em 100 dólares o barril se o estreito continuar fechado. O Goldman Sachs já havia alertado sobre isso no ano passado, quando o conflito de doze dias entre Israel e Irã era apenas um ensaio para o que viria.

Agora veio.

As bolsas europeias despencaram. Frankfurt caiu 2,4%. Paris, 2,2%. Madri, 2,6%. Na Ásia, Tóquio recuou 1,3%, Hong Kong 2,1%. Wall Street oscilou feito bêbado na calçada — abriu em queda, investidores compraram na baixa, e o dia terminou quase no zero, como se nada estivesse acontecendo. Os americanos têm essa capacidade olímpica de fingir normalidade enquanto seus próprios mísseis cruzam o Golfo Pérsico.

O ouro, esse velho refúgio dos apavorados, saltou para 5.311 dólares a onça. O dólar subiu contra praticamente todas as moedas do planeta. No Brasil, fechou a R$ 5,16 — e só não subiu mais porque exportadores aproveitaram a cotação alta para vender. Até nisso somos pragmáticos.

Mas o que realmente assusta não é o número de hoje. É o de amanhã.

Porque o Estreito de Ormuz não é apenas uma rota de petróleo. Por ali passa também o gás natural liquefeito do Catar, de Omã, da Arábia Saudita. Oitenta por cento de todo o óleo produzido no Oriente Médio escoa por aquele gargalo de 34 quilômetros. As seguradoras marítimas já cancelaram coberturas de risco de guerra para a região. A Maersk e a Hapag-Lloyd, duas das maiores empresas de navegação do mundo, suspenderam trânsitos pelo estreito. Os navios que ainda operam terão de contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança, como faziam os portugueses no século 16. Semanas a mais de viagem. Custos triplicados.

E quem paga?

Você paga. Eu pago. O cara que abastece o carro em Goiânia paga. A dona de casa que compra o botijão de gás em Recife paga. O agricultor que precisa de diesel para a colheita paga. O dono da padaria que recebe a farinha pelo caminhão paga. A cadeia é longa e implacável: sobe o petróleo, sobe o frete, sobe o insumo, sobe o produto, sobe a inflação. E quando sobe a inflação, o Banco Central sobe os juros. E quando sobem os juros, para de chegar crédito, param os investimentos, param os empregos.

É assim que uma guerra a 12 mil quilômetros de distância te tira o emprego.

A S&P Global, uma das maiores agências de classificação de risco do mundo, mudou a avaliação da situação no Oriente Médio de "alta" para "severa". A Fitch fez o mesmo. A The Economist publicou que este pode ser o maior choque no mercado de petróleo em anos. E a OPEP+ prometeu aumentar a produção em 206 mil barris por dia — um gesto nobre, mas inútil se os barris não têm por onde sair.

É como abrir mais torneiras quando o cano está entupido.

O Brasil, por uma dessas ironias da história, está em posição relativamente confortável. Somos exportadores líquidos de petróleo. A Petrobras bateu recorde de exportação em 2025, com picos de mais de um milhão de barris por dia. O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo disse que, se estivéssemos na situação dos anos 70, quando importávamos 90% do que consumíamos, o choque seria devastador. Não é. Mas também não é indolor. Porque o Brasil exporta petróleo cru e importa derivados — gasolina, diesel, querosene de aviação. Exportamos a matéria-prima e compramos o produto acabado. É a velha sina brasileira, repetida desde a cana-de-açúcar.

Enquanto isso, na China, os estoques de petróleo são grandes, mas não infinitos. A Índia e o Japão já correm atrás de fornecedores alternativos. A Europa, que mal saiu da crise energética provocada pela guerra na Ucrânia, vê o fantasma da escassez voltar a bater na porta. E os países do Golfo — aqueles que deveriam estar lucrando com o petróleo caro — estão, na verdade, sob ataque. Mísseis iranianos atingiram Dubai, Abu Dhabi, Riad, Doha, Manama, Kuwait. A ironia: os maiores produtores de petróleo do mundo não conseguem escoar seu próprio petróleo.

Trump disse que a guerra seria "facilmente vencida". Talvez no campo de batalha. Mas guerras não se vencem apenas com bombas. Vencem-se — ou perdem-se — nos postos de gasolina, nas prateleiras dos supermercados, nas contas de luz, nos boletos que chegam todo mês.

Em 1973, os países árabes cortaram o fornecimento de petróleo ao Ocidente em retaliação ao apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur. O preço do barril quadruplicou. Filas nos postos de gasolina se formaram nos Estados Unidos, na Europa, no Japão. A economia mundial entrou em recessão. Governos caíram. O mundo nunca mais foi o mesmo.

Cinquenta e três anos depois, os ingredientes são assustadoramente parecidos. Um conflito envolvendo Israel. Um estrangulamento no fornecimento de petróleo. Um Oriente Médio em chamas. E a mesma arrogância de sempre: a certeza de que a guerra será rápida, cirúrgica e indolor.

Pergunte aos seus avós como foi 1973.

Depois olhe para Ormuz e me diga se não está sentindo um déjà vu.

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M. Casamata
M. Casamata

M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.

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