Facilmente Vencida
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Facilmente Vencida

Trump disse que uma guerra com o Irã seria "facilmente vencida". Enquanto isso, imagens de satélite mostram as defesas iranianas se fortificando e generais americanos alertam que os arsenais dos EUA estão desgastados. A arrogância de quem nunca pisou num campo de batalha é sempre a mesma.

M. Casamata
M. Casamata
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Trump disse que uma guerra contra o Irã seria "facilmente vencida". Facilmente. Como quem diz que vai ganhar uma partida de damas. Só que o tabuleiro tem 88 milhões de peças, mísseis balísticos e montanhas que nem o Google Maps consegue mapear direito.

O curioso é que quem discorda dele não é um jornalista qualquer, nem um senador de oposição, nem um analista de sofá. É o próprio general dele. O general Daniel Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, avisou reservadamente à Casa Branca que a coisa não seria tão simples assim. Disse que os arsenais americanos estão desgastados pelo apoio contínuo a Israel e à Ucrânia, que uma operação em larga escala contra o Irã seria complexa, que haveria baixas americanas e que os aliados não estão muito a fim de embarcar nessa canoa.

Pois Trump foi ao Truth Social e desmentiu tudo. Disse que as reportagens eram "100% incorretas". Que o general apoiaria um ataque se recebesse ordem. E que ele, Trump, é quem toma a decisão final. Sozinho. Sempre sozinho.

Percebe o padrão? Quando o general diz que a guerra é arriscada, o presidente diz que é fácil. Quando os satélites mostram defesas, o presidente vê fraqueza. Quando os fatos apontam para um lado, Trump aponta para o outro. É como um médico que recebe o resultado do exame e decide que o laboratório errou.

E por falar em satélites: imagens capturadas por empresas chinesas e americanas mostram um cenário que contradiz o otimismo presidencial. Na Jordânia, a base aérea de Muwaffaq Salti aparece lotada: 18 caças F-35, seis aviões de guerra eletrônica EA-18G Growler. No Mar Arábico, o porta-aviões USS Abraham Lincoln e seu grupo de ataque. Vindo de Gibraltar, o USS Gerald Ford — outro porta-aviões nuclear — com todo o seu séquito. Na semana passada, 12 caças F-22 foram enviados para uma base no sul de Israel. Primeira vez que os EUA posicionam armamento ofensivo em solo israelense. É muita coisa para quem diz que seria fácil.

Do outro lado, o Irã também se mexeu. Imagens de satélite da região de Teerã mostram lançadores Bavar-373 — o orgulho da indústria bélica iraniana — posicionados ao redor de instalações estratégicas. Sistemas S-300 herdados da Rússia. Estações de guerra eletrônica. Minas no Estreito de Ormuz. Submarinos. Drones. Os iranianos levaram o ultimato a sério, mesmo que Trump não leve os iranianos a sério.

O programa nuclear, que é o pretexto de tudo isso, já foi bombardeado em junho do ano passado, na chamada Operação Midnight Hammer, quando B-2 americanos atacaram três instalações nucleares iranianas durante aquela guerra-relâmpago de doze dias entre Israel e Irã. Resultado? Os iranianos reconstruíram. Imagens recentes mostram atividade em pelo menos dois dos locais bombardeados. É como tapar buraco em estrada brasileira: você conserta hoje, amanhã já tem outro.

E enquanto isso, negociadores sentam em Genebra fingindo que a diplomacia ainda funciona. Os iranianos dizem que houve "bom progresso". Os americanos dizem que houve "um pouco de progresso". É aquele tipo de conversa em que todo mundo sai dizendo que foi ótimo, mas ninguém lembra o que combinou.

A verdade é que Trump precisa dessa guerra mais do que admite. Seus índices de aprovação caíram. As tarifas geraram confusão. O Congresso ameaça mudar de mãos em novembro. Uma vitória militar rápida seria o troféu perfeito. O problema é que vitórias militares rápidas no Oriente Médio só existem nos discursos. Na prática, o Iraque durou vinte anos. O Afeganistão, mais de vinte. E ambos eram, militarmente, muito mais fracos que o Irã.

Mas Trump olha para tudo isso e vê uma coisa fácil. Facilmente vencida.

Bush disse algo parecido em 2003. "Missão cumprida", declarou num porta-aviões, vestido de piloto. A missão durou mais duas décadas.

Há uma arrogância especial em líderes que nunca pisaram num campo de batalha. Eles veem a guerra como um jogo de videogame: você aperta o botão, a coisa explode, você ganha pontos. Não veem os hospitais lotados, as cidades em ruínas, os refugiados cruzando fronteiras. Não veem os próprios soldados voltando em caixões cobertos com a bandeira americana.

Facilmente vencida.

Deve ser a frase mais perigosa da língua inglesa.

Anúncio Fim do Post
M. Casamata
M. Casamata

M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.

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