Ele Disse que Seria Rápido
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Ele Disse que Seria Rápido

Trump destruiu o acordo nuclear com o Irã em 2018 e sete anos depois trava uma guerra contra as consequências da sua própria decisão. O prometido "acordo rápido" virou campanha militar sem fim à vista — e o Brasil, como sempre, paga a conta no diesel e no câmbio.

M. Casamata
M. Casamata
4 min de leitura

Em 2018, Donald Trump saiu de um acordo nuclear que estava funcionando. Não era perfeito. Nunca é. Mas estava funcionando.

O Irã havia entregado 97% do seu estoque de urânio enriquecido. Tinha desmontado dois terços das centrífugas. Aceitava inspetores do AIEA dentro das suas instalações. O enriquecimento estava limitado a 3,67% — longe, muito longe, dos 90% necessários para uma arma. O mundo respirava com um olho aberto, mas respirava.

Trump chamou o acordo de "o pior negócio já feito". Saiu. Impôs sanções máximas. E esperou que o Irã viesse de joelhos bater à sua porta.

O Irã não foi.

Sete anos depois, o país enriquecia urânio a 60%. Quase nível de armamento. Tinha suspenso a cooperação com os inspetores internacionais. E estava construindo barreiras de segurança ao redor de complexos nucleares subterrâneos. Não eram sinais de um país querendo negociar por medo. Eram sinais de um país que aprendeu que não havia motivo para confiar.

Em abril de 2025, Trump tentou de novo. Enviou carta ao aiatolá Khamenei. Abriu negociações em Omã. E deu ao Irã um prazo de 60 dias para fechar um acordo.

Sessenta dias.

Para um problema que ele próprio levou sete anos construindo.

Há um tipo específico de arrogância que confunde velocidade com competência. Que acredita que a força da personalidade resolve o que a diplomacia paciente não resolveu. Que acha que um prazo de vendedor ambulante funciona com um Estado que já esperou 46 anos desde sua revolução.

O prazo passou. Não houve acordo.

Em junho de 2025, Israel atacou. Instalações nucleares, bases militares, infraestrutura estratégica. Os EUA participaram. Trump anunciou que as bombas tinham "significativamente degradado" o programa nuclear iraniano.

O Irã apresentou um míssil novo no dia seguinte.

Em fevereiro de 2026, Trump lançou uma campanha ainda maior. Desta vez mirando não só instalações, mas a liderança política e militar do regime. Uma guerra que começou como pressão virou blitz. Uma blitz que começou como solução virou problema sem fim à vista.

E enquanto isso, o petróleo.

O Brasil sente guerras no Oriente Médio de uma forma muito concreta: no posto de gasolina, no diesel do caminhoneiro, na conta de luz que sobe quando a energia elétrica precisa compensar o gás mais caro. A Petrobras oscila entre dois mundos — o preço do barril sobe quando o Oriente Médio pega fogo, mas os mercados globais ficam nervosos, e nervoso é o estado favorito do dólar para subir.

A China comprava petróleo iraniano com desconto — mais de um milhão de barris por dia, segundo estimativas. Com as sanções máximas de Trump, parte desse fluxo vai buscar alternativa. Onde? No mercado aberto. O que isso faz? Pressiona preços. O que preços mais altos fazem para um país como o Brasil, exportador de commodities agrícolas que dependem de diesel para chegar ao porto? Complica.

Há um lado positivo: o Brasil produz petróleo. Preços altos favorecem a Petrobras e os royalties que financiam estados e municípios. Só que o Brasil também importa derivados. E o câmbio instável come qualquer ganho antes de chegar à prateleira.

É o eterno dilema de quem está no meio do caminho: nem tanto a benefício, nem tanto ao prejuízo — mas sempre com a conta chegando antes do lucro.

Existe uma ironia que Trump não vai admitir em nenhum discurso.

O acordo que ele destruiu em 2018 limitava exatamente o que ele agora tenta destruir à força de bomba. A diferença é que em 2015 custou negociação. Em 2025, custou mísseis. Em 2026, está custando uma guerra sem prazo definido num Oriente Médio que já era um barril de pólvora antes de alguém jogar o cigarro.

A Europa, que participou do acordo original, foi excluída das negociações de 2025. Convocada apenas quando havia uma ferramenta útil — o mecanismo de "snapback", que poderia reimpositar sanções da ONU ao Irã antes de outubro de 2025. Usada como instrumento. Ignorada como parceira.

É a diplomacia de Trump em síntese: aliados são úteis quando obedecem. Quando pensam, são um estorvo.

Trump disse que seria rápido. Disse que era um bom negociador. Disse que o mundo precisava de força, não de acordos fracos assinados por presidentes fracos.

Ele estava errado sobre o acordo. Estava errado sobre o prazo. Estava errado sobre o Irã.

A única coisa que estava certa era o adjetivo.

Isso, sim, vai ser longo.

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M. Casamata
M. Casamata

M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.

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