Com Quem Trump Não Briga?
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Com Quem Trump Não Briga?

Um e-mail vazado do Pentágono ameaça suspender a Espanha da OTAN e rever o apoio americano à soberania britânica sobre as Malvinas — punições aos aliados que se recusaram a apoiar a guerra no Irã. O problema: a OTAN não tem mecanismo legal para expulsar ninguém. O que a crônica encontra por trás das ameaças é um padrão mais revelador do que o próprio e-mail: Trump nunca briga com quem se submete.

M. Casamata
M. Casamata
5 min de leitura

A guerra das Malvinas durou 74 dias. Terminou em junho de 1982, com 900 mortos e uma ilhota batida pelo vento no Atlântico Sul. Pois bem. Ela voltou. Desta vez, num e-mail do Pentágono.

Um documento interno — vazado, como sempre são os documentos que Washington quer que vazem — circulou pelos corredores do Departamento de Defesa esta semana. Listava opções de punição para aliados da OTAN que recusaram apoiar as operações militares americanas contra o Irã. A Espanha, principal alvo, poderia ter sua adesão à aliança "suspensa". A Grã-Bretanha, punição mais elegante, veria os Estados Unidos reverem seu apoio histórico à soberania britânica sobre as Ilhas Malvinas.

Quarenta e quatro anos apagados num parágrafo.

A Espanha de Pedro Sánchez fechou suas bases e seu espaço aéreo para os bombardeios ao Irã. Chamou a guerra de "ilegal". Trump respondeu na altura: chamou o país de "terrível", ameaçou cortar todo o comércio e sugeriu, numa ocasião, que deveriam expulsar a Espanha da OTAN. O problema — e é um problema grande — é que a OTAN não tem mecanismo para isso. O tratado fundador não prevê expulsão nem suspensão. Uma fonte da própria aliança confirmou ao mundo o óbvio: "O Tratado do Atlântico Norte não prevê qualquer disposição para suspensão ou expulsão de membros."

Trump pode xingar. Pode tuitar. Pode chamar a OTAN de "tigre de papel" e os europeus de "covardes". Mas tirar alguém de lá? Não pode.

Então estamos diante de ameaças. Ruído estratégico. A ferramenta favorita de quem não tem todas as ferramentas que diz ter.

Com a Grã-Bretanha, o cálculo é igualmente peculiar. Keir Starmer já havia cedido — autorizou o uso de bases britânicas para fins "defensivos" depois de Trump chamá-lo de "nenhum Winston Churchill" e chamar os porta-aviões da Marinha Real de "brinquedos". Um aliado que está se dobrando não precisa ser humilhado com mais força. Mas Trump fez isso assim mesmo. Ameaçou rever as Malvinas. Jogue pedra num cachorro que já está se rastejando.

Milei, claro, ficou eufórico.

O presidente argentino declarou que está "fazendo tudo que é humanamente possível" para recuperar as ilhas. Em 1982, jovens argentinos foram morrer naquele Atlântico gelado com fuzis enferrujados e anorakes improvisados, mandados por uma ditadura que precisava de uma vitória fácil e encontrou sua derrota definitiva. Mais de 600 argentinos morreram. O que a junta militar não conseguiu com um exército, Milei agora acredita que um e-mail de Washington pode resolver.

É uma cena de teatro do absurdo. Mas é também a cena mais reveladora de toda essa história.

Porque Milei está na lista de quem Trump não ataca. Não xinga. Não ameaça. Não chama de covarde.

Pense nos nomes que Trump não insulta. Milei. MBS, o príncipe saudita a quem Trump reverenciou com uma dança de espadas no primeiro mandato. Putin, formalmente convidado para o "Conselho da Paz" — aquela curiosa iniciativa trumpista que reuniu mais líderes com processos em cortes internacionais do que a própria Corte de Haia. Orbán, que perdeu a eleição húngara este mês, custando a Trump seu último apóstolo fiel na Europa.

O padrão não é difícil de identificar. Trump não briga com quem se curva. Com quem bajula. Com quem entrega algo em troca — território, petróleo, lealdade declarada publicamente e sem constrangimento.

É uma lógica antiga. Não de estadista. De dono de bairro. O padeiro que paga o "seguro" não tem problema com ninguém. O que recusa a pagar descobre que suas janelas quebram com uma frequência suspeita.

Para o Brasil, essa geometria importa mais do que parece. O Estreito de Ormuz está fechado há dois meses pela guerra com o Irã. Petróleo pressionado significa Petrobras pressionada, que significa diesel mais caro, que significa frete mais caro, que chega ao custo do arroz e do feijão na prateleira do supermercado. A Argentina de Milei, agora potencial beneficiária de uma reviravolta sobre as Malvinas, é o vizinho com quem o Brasil tem sua fronteira mais longa. Uma disputa territorial revivida no Atlântico Sul não é assunto só para Buenos Aires e Londres. A OTAN em crise é a Europa em crise, e Europa em crise é menos mercado para exportações brasileiras, menos investimento, mais incerteza.

A geopolítica virou doméstica. Acontece que ninguém está explicando isso no horário nobre.

Trump, por sua vez, continua na mesma posição de sempre: dentro da OTAN, sem sair, sem ter a intenção de sair, mas ameaçando quem está dentro. É o melhor negócio possível. Você não sai do clube — você usa o clube como porrete. A presença americana é o ativo. A ameaça de retirada é a moeda.

Há 77 anos, a OTAN foi criada para defender o Ocidente de seus inimigos externos. Funcionou. Nenhum membro foi invadido. A dissuasão foi real.

Ninguém havia planejado para o momento em que a maior pressão sobre a aliança viria de dentro.

Com quem Trump não briga? Com quem obedece.

E a lista dos obedientes está crescendo.

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M. Casamata
M. Casamata

M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.

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