
Bem-vindo ao Bunker
Os bilionários do Vale do Silício estão construindo bunkers — os mesmos que criaram a inteligência artificial que pode acabar com tudo. Zuckerberg tem um complexo de 500 hectares no Havaí. Altman guarda provisões de sobrevivência. Musk planeja fugir para Marte. Eles não estão tentando salvar o planeta. Estão tentando escapar dele.
Existe uma coincidência curiosa que não me sai da cabeça.
Os homens mais ricos do planeta — aqueles que criaram as tecnologias que mudaram a nossa vida — estão cavando buracos. Literalmente. Mark Zuckerberg construiu uma fortaleza de 500 hectares no Havaí, com bunker subterrâneo, portas à prova de explosão, túnel de fuga, sistema próprio de energia, água e alimentos. Tudo protegido por acordos de confidencialidade tão rígidos que os operários de uma equipe são proibidos de falar com os da outra. Custo estimado: 1,6 bilhão de reais. Quando perguntaram a ele o que era aquilo, respondeu que era "apenas um porão".
Um porão de 1,6 bilhão. Claro.
Sam Altman, o homem por trás do ChatGPT, guarda armas, ouro, antibióticos e máscaras de gás numa propriedade na Califórnia. Tem um plano B que consiste em voar para a Nova Zelândia e se enfiar na fazenda de Peter Thiel, o bilionário do PayPal, que comprou terras lá e até tirou cidadania neozelandesa para garantir a porta aberta. Jeff Bezos adquiriu 162 mil hectares no Texas. Bill Gates tem propriedades rurais espalhadas pelos Estados Unidos com níveis de segurança que fariam inveja a uma embaixada. Elon Musk vai mais longe: quer colonizar Marte. Para ele, o bunker é um planeta inteiro.
Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, deu nome a essa mania: "seguro do apocalipse". Segundo ele, metade dos super-ricos do Vale do Silício já possui algum tipo de refúgio. Metade.
E aqui vem a coincidência que eu mencionei.
Esses mesmos homens são os que criaram a inteligência artificial. Foram eles que construíram os algoritmos, treinaram as redes neurais, colocaram o ChatGPT no celular de todo mundo. São eles que nos dizem, todos os dias, que a IA vai revolucionar a medicina, a educação, o trabalho, a vida. E são eles — exatamente eles — que estão cavando buracos no chão para se esconder.
Esconder de quê?
Ilya Sutskever, cientista-chefe da OpenAI, chegou a sugerir que os pesquisadores construíssem um bunker antes de liberar uma tecnologia tão poderosa. O próprio Altman admitiu que, se a inteligência artificial geral "der errado", nenhum bunker será suficiente. Mas construiu o dele assim mesmo. É como o sujeito que fabrica fogos de artifício e dorme de capacete.
Há algo de profundamente perturbador nessa lógica. Os caras que acendem o pavio são os primeiros a correr.
E não são só os robôs que assustam. Olhe ao redor.
Trump, no segundo mandato, acordou com vontade de brigar com o mundo. Ameaça invadir o Irã. Mandou dois porta-aviões nucleares para o Golfo Pérsico, mais F-22, F-35, bombardeiros, destroyers, submarinos — a maior concentração militar americana no Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003. Deu ao Irã "10 a 15 dias" para aceitar um acordo, enquanto o Almirante do Comando Central apresentava opções de ataque. Diplomacia com granada no bolso.
A Rússia continua atolada na Ucrânia, uma guerra que já dura quatro anos e que ninguém sabe como termina. A China observa tudo com a paciência de quem sabe que o tempo joga a seu favor. O Oriente Médio é um barril de pólvora com fósforos espalhados pelo chão. E o ouro — esse termômetro ancestral do medo humano — não para de subir.
É nesse contexto que nasce o Bunker 26.
Não, eu não tenho um bunker. Não tenho 1,6 bilhão e nem cidadania neozelandesa. O que eu tenho é curiosidade e uma certa inquietação com o mundo que se desenha diante de nós. Este blog é o meu bunker. É daqui que pretendo observar, com um olho no noticiário e outro na história, os movimentos que podem mudar tudo — ou nada.
Vamos falar de geopolítica, de guerras que se aproximam, de inteligência artificial que avança mais rápido do que a nossa capacidade de entendê-la. Vamos falar de líderes que ameaçam países como quem ameaça vizinhos numa briga de condomínio. Vamos falar de bilionários que constroem cidades subterrâneas enquanto vendem otimismo na superfície. Vamos especular, sim, porque especular é o exercício de quem tenta enxergar o que vem pela frente antes que chegue.
O ano é 2026. Trump negocia com o Irã de manhã e desenha planos de ataque à tarde. A IA já escreve textos, cria imagens, programa códigos e conversa como gente — e seus criadores dormem com máscaras de gás na gaveta. O mercado global de bunkers, que valia 137 milhões de dólares em 2024, deve chegar a 175 milhões até 2030. E o setor de bunkers de luxo — com pista de boliche, piscina, cinema e entrada biométrica — caminha para os 36 bilhões.
Se isso não é material para uma crônica, eu não sei o que é.
Há uma frase que o professor Douglas Rushkoff escreveu depois de jantar com cinco bilionários que o convidaram para discutir estratégias de sobrevivência. Eles queriam saber como manter a lealdade dos seguranças após o colapso da civilização. Cogitaram coleiras disciplinares. Cogitaram fechaduras secretas nos estoques de comida. Cogitaram robôs no lugar de guardas. Rushkoff tentou argumentar que a melhor estratégia era tratar bem as pessoas agora, investir em relações humanas, em solidariedade. Os bilionários reviraram os olhos.
Esse é o mundo em que vivemos. Os mais ricos e os mais inteligentes não estão tentando salvar o planeta. Estão tentando escapar dele.
Bem-vindo ao Bunker 26. Acomode-se. O espetáculo está só começando.
M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.
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