
A Lei com Data de Validade
A Suprema Corte americana derrubou as tarifas IEEPA de Trump em fevereiro de 2026. Em 24 horas, ele inventou outro mecanismo legal — mas com 150 dias de prazo de validade. Uma crônica sobre o que acontece quando a maior potência do mundo descobre que sua própria Constituição tem parágrafo para tudo.
Donald Trump perdeu na Suprema Corte em 20 de fevereiro de 2026. Em 21 de fevereiro, ele já tinha inventado outro jeito.
Isso, em resumo, é o estado da democracia americana no segundo mandato.
A corte derrubou as tarifas impostas via IEEPA — o International Emergency Economic Powers Act, a lei de emergência econômica que Trump havia usado como canivete suíço para taxar o planeta inteiro. Seis votos contra três. Dois dos votos contra vieram de Gorsuch e Barrett, seus próprios indicados, seus legados, os juízes que ele passou anos dizendo que eram a prova de que sua presidência tinha valido a pena. Quando o resultado saiu, Trump disse que a decisão o enchia de nojo. Usou o verbo em inglês: "sicken me." Os filhos que nunca obedecem são sempre uma decepção.
Em menos de vinte e quatro horas, ele assinou outra proclamação. Desta vez, a base legal era a Section 122 do Trade Act de 1974 — uma lei que foi escrita exatamente para situações de emergência comercial, com uma característica peculiar que os redatores de 1974 consideraram razoável e que Trump parece ter lido com cuidado seletivo: os poderes que ela concede expiram em 150 dias, a menos que o Congresso vote para renová-los.
Cento e cinquenta dias.
Trump quer tarifas permanentes. Quer um Estados Unidos que não dependa de nada de ninguém. Quer que a soberania comercial americana seja inscrita na rocha. A única lei que ele encontrou disponível tem prazo de validade estampado na embalagem, como iogurte.
Existe uma metáfora aqui que escreve a si mesma, e que os cronistas sérios fingem não ver por considerá-la excessivamente óbvia. Não me importo com o excessivamente óbvio. O óbvio tem a virtude de ser verdadeiro.
A data de expiração cai em julho de 2026. Neste momento, cinquenta e cinco dias se passaram. O Congresso vai precisar votar. E o Congresso americano de 2026 é um lugar onde nada acontece por consenso e tudo acontece por negociação, chantagem ou omissão. Vinte e quatro estados já entraram com ação judicial. Os lobistas do setor de manufatura e do agronegócio americanos estão nos corredores de Washington fazendo o que sempre fazem: gastando dinheiro para explicar, educadamente, que as tarifas custam mais do que rendem.
Trump não perdeu. Improvisou. Mas existe uma diferença entre vencer uma batalha e garantir o resultado da guerra, e essa diferença é a razão pela qual as nações escrevem constituições.
A Suprema Corte americana foi projetada por homens que tinham medo do poder concentrado — tinham medo porque tinham acabado de sair de uma colônia com um rei arbitrário e sabiam exatamente como era. Montesquieu tinha acabado de publicar. Locke estava na cabeça de todos. O resultado foi uma máquina de freios e contrapesos que faz qualquer presidente, de qualquer partido, parecer mais poderoso do que de fato é.
Trump passou dois mandatos brigando com essa máquina. E a máquina continua funcionando. Não por amor à democracia — as máquinas não amam nada —, mas por inércia estrutural. Porque os advogados treinaram nisso. Os juízes juraram isso. Os vinte e quatro estados contrataram escritórios que sabem exatamente onde fica o parágrafo que desfaz o decreto.
O paradoxo central da política tarifária de Trump é este: ele quer independência permanente, mas cada instrumento legal que encontra tem uma cláusula de expiração, uma votação necessária, uma revisão judicial pendente. O "America First" não é uma política. É uma corrida contra o relógio constitucional.
E esse relógio não para.
O setor privado americano aprendeu isso da pior forma. Não é o nível das tarifas que destrói o planejamento empresarial — é a incerteza. Hoje é IEEPA. Amanhã é Section 122. Depois de amanhã pode ser outra coisa, dependendo de quem o presidente está brigando naquele fim de semana. As cadeias de suprimento que passaram décadas sendo construídas com precisão milimétrica não foram projetadas para funcionar em ambiente de decreto executivo substituído a cada trimestre.
Uma executiva de logística que gerencia rotas Ásia-EUA disse, em março, que a volatilidade das regras era pior do que as regras em si. Que pelo menos com uma tarifa estável você pode calcular. Com uma tarifa que muda de base legal a cada sentença judicial, você para de calcular e começa a rezar.
Rezar é uma estratégia. Não é uma boa estratégia.
O que a Suprema Corte fez em fevereiro foi lembrar ao presidente dos Estados Unidos que ele dirige uma república e não um feudo. Que a lei que ele invoca para agir tem limites que ele não escreveu e não pode apagar. Que seus indicados — dois deles — são juízes, não funcionários.
Trump chamou isso de nojo.
A Constituição americana, se pudesse responder, provavelmente responderia: "Recíproco."
Cento e cinquenta dias. O relógio corre. E a próxima eleição ainda está longe.
M. Casamata escreve do lugar de onde se vê melhor: de dentro. Cronista, observador de guerras que não lutou e de políticos que não elegeu. Acredita que o mundo caminha para algum lugar — só não tem certeza de qual. Publica no Bunker 26 desde 2026.
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